sexta-feira, 28 de outubro de 2016


Ainda há esperanças!

Ana Júlia diz aquilo que todos os brasileiros queriam dizer aos seus representantes e se torna um ícone das ocupações estudantis contra a perda de direitos


A jovem Ana Júlia, de apenas 16 anos, surpreendeu o Brasil ao discursar na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná sobre as ocupações que ocorrem em mais de 800 escolas do Estado. As ocupações ocorrem contra duas medidas principais, a reforma do Ensino Médio, regulamentada através de medida provisória pelo presidente Michel Temer, ou seja, sem a discussão que uma reforma dessa magnitude deveria ter com a sociedade ou pelo menos com os representantes da sociedade, legisladores, e o Projeto de Emenda Consticional (PEC) 241 que congela os investimentos públicos em áreas de atendimento a população, entre elas a educação, pelos próximos 20 anos.

Com muita desenvoltura e emocionada durante o seu discurso, a secundarista falou sobre a manipulação midiática, sobre o conhecimento adquirido nas ocupações, a mudança de concepção por parte dos estudantes daquilo que é a escola, a sua importância social e sobre a cidadania adquirida nos debates escolares.

O vídeo do discurso da aluna na câmara dos deputados poderá ser visto ao final deste texto.

Ana Júlia colocou como um dos principais problemas do Brasil o analfabetismo funcional, que consiste em uma leitura sem compreensão ou sem senso crítico daquilo que se está lendo. E esse é certamente um dos grandes problemas da sociedade brasileira. O brasileiro, de forma geral, lê muito pouco e por isso tem dificuldade de entender a sua história e a formação da sua sociedade. Isso impede que estes possam ser atuantes e verdadeiros cidadãos no momento de cobrar do Estado os seus direitos, bem como dos seus representantes, e que os seus interesses sejam atendidos. Como a leitura e o conhecimento de sua história são escassos, a população brasileira tem um outro problema para formar a sua opinião, que é a manipulação midiática, também citada por Ana Júlia. Hoje, a imprensa brasileira é controlada basicamente por 7 famílias de milionários e bilionários que possuem um monopólio sobre aquilo que será ou não demonstrado à população. É quase um país de uma voz apenas. Tudo aquilo que vai contra os interesses da classe dominante, como as ocupações realizadas por estudantes, a perda de direitos sociais não sai na mídia ou, quando sai, não é colocado de forma positiva para o público ou não tem o destaque que deveria possuir caso o Brasil fosse um país que tivesse uma diversidade de mídias televisivas, radiofônicas e impressas.

A estudante afirma que é difícil selecionar as informações, avaliar com profundidade e entender o que é certo e o que é errado para tomar um lado e agir de acordo com as convicções. E ela tem razão. Á medida que a opinião é quase única, a sociedade não tem condições de avaliar o contraste das informações que estão recebendo. Informações contrárias às da grande mídia só são recebidas em pequenas mídias alternativas que se desenvolvem especialmente nas redes sociais e isso faz com que a maioria da população que se informa pela televisão ou pelos jornais impressos ou online, que são dominadas por esse pensamento único, não consigam entender que todas aquelas informações tem uma intencionalidade, que na maioria das vezes é contrária aos interesses desses leitores.

Esse bombardeamento de informações ao longo do tempo faz com que as pessoas introjetem o modelo de pensamento dominante que criminaliza os movimentos sociais, sindicais ou movimentos que contrariam aquilo que o Estado define como correto, que nesse caso é a não ocupação das escolas e a não manifestação contra ordens do governo, mesmo que estas sejam as mais prejudiciais possíveis para a sociedade, é como se o povo não tivesse o direito de livre pensamento ou de questionar.

Tudo isso faz com que a nossa sociedade fique mais individualista, pensando cada vez de forma mais imediata e de acordo com os preceitos capitalistas, pregados diariamente pela mídia, com uma ideia de que a sociedade se move através de meritocracia e que a busca pela evolução deve ser individual e não coletiva.

Ao introjetar esse pensamento como único na maioria da sociedade, vemos aberrações políticas, como estamos vendo atualmente. Enquanto os políticos se unem com a mídia para retirada de direitos trabalhistas e sociais das classes mais pobres, boa parte de pessoas humildes votam em pessoas que estão retirando os seus direitos e defendem os seus ideais. E a explicação disso é exatamente a falta de leitura, senso crítico, conhecimento histórico, da formação do seu povo e, obviamente, o bombardeio midiático e a manipulação das informações por parte da mídia oligárquica.

O outro ponto alto da fala da aluna foi quando ela responsabilizou os parlamentares do Estado por eles estarem com as mãos sujas de sangue. É interessante a forma em que os nossos parlamentares se veem no decorrer da sua representação popular e social. Eles definem boa parte dos preceitos sociais, definem o que temos direito e o que não temos, definem onde os nossos recursos serão aplicados, mas não se acham responsáveis pela consequências das suas definições. Não se acham responsáveis pela desigualdade social; não se acham responsáveis pelos problemas na área da saúde, mesmo desviando bilhões dessa área; pela morte de pessoas na fila do SUS; não se veem responsáveis pelos índices de educação baixos que possuímos, mesmo quando retiram ou roubam recursos das escolas; não se veem responsáveis quando não valorizam os professores ou quando, também pelo motivo da precaridade escolar, são demonstrados números alarmantes de violência e morte de adolescentes. Para se ter uma ideia, nessa semana algumas reportagens destacaram que no ano passado mais de 58 mil pessoas foram assassinadas no Brasil, a maioria deles jovens e adolescentes, o que demonstra um número maior do que o número de mortos na guerra da Síria. Particularmente, eu concordo plenamente com a Ana Júlia, as mãos dos nossos políticos estão cheias de sangue, assim como as mãos dos nossos juízes e demais pessoas da nossa sociedade que teriam condições de mudar a nossa realidade e não o fazem.

A fala de Ana Júlia nos traz um pouco de esperança de um futuro melhor, pois prega exatamente o contrário daquilo que a grande mídia nos passa, que todos devem pensar de forma individualizada, devem lutar por si mesmo, devem buscar se individualizar para serem concorrentes entre uns e outros, diferentemente da fala da secundarista, que luta pela educação geral, que luta pelo futuro da nossa sociedade, que luta pelos nossos filhos e netos, que luta pelo Brasil!

Que essa mensagem chegue a um número cada vez maior de pessoas. E que essas pessoas possam começar a ter senso crítico e assim pensem mais de forma comunitária, naqueles que mais necessitam, pensando dessa forma certamente se verão como um grupo de pessoas com interesses contrários aos que dominam os nossos sistemas políticos, jurídicos, midiáticos e, assim, poderão tentar alterar de alguma forma o seu destino.

Outra curiosidade que entra na parte política dos fatos é com relação às pessoas que compartilharam as falas da jovem, entre eles estavam Lula, Dilma e representantes dos partidos dos trabalhadores e da esquerda, principalmente, PCdoB, PDT, PSOL, que são aqueles os que pregam exatamente mais participação social na política, aumento de recursos para educação, saúde e outras áreas de atendimento da sociedade mais humilde. Por outro lado, a crítica e a tentativa de desconstrução da fala da jovem partiu de grupos como o MBL e de partidos contrários a esses ideias formados principalmente pelo PSDB, PMDB e DEM, que tem atuado também a favor da PEC 241 e da Reforma do Ensino Médio proposta pelo presidente Michel Temer. Por esses fatores, a sociedade já poderia entender quem está ao seu lado e quem está ao contrário se tivessem o senso crítico descrito pela jovem.

Enfim, com todos os problemas de perdas de direitos sociais, trabalhistas, entre outros dos últimos dias, bem como os que estão por vir, mensagens como essa de Ana Julia nos mostram que vale a pena lutar por um futuro melhor para o nosso país, que vise mais igualdade de oportunidades e melhoria dos serviços públicos. Nos dá a esperança de um futuro melhor. Parabéns Ana Julia que você seja a semente para a produção de um ideal mais crítico e inclusivo na nossa sociedade!

#SomosTodosAnaJúlia, ainda que muitos dos pobres não tenham entendido isso, e para os ricos que tenham objetivos e ideias antagônicos às das classes trabalhadoras, de forma prática, estes também deveriam ter pensamentos como os de Ana Júlia, pois uma sociedade igualitária e justa é uma sociedade próspera, menos violenta e, mesmo que não percebam, de uma forma ou de outra, igualdade de recursos e de oportunidades também atendem aos seus interesses.



Anderson Silva