quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Retrospectiva 2016: o ano que durará 20 anos

O ano de 2016 se encerra na próxima semana, mas os seus reflexos negativos tendem a durar pelos próximos 20 anos graças à ruptura institucional, que gerará impactos profundos na nossa democracia pelos próximos anos e a aprovação da PEC 241 – 55 que limita os gastos primários do Governo Federal pelas próximas duas décadas


O ano de 2016 é um ano em que os brasileiros pretendem esquecer tanto no aspecto político quanto no social. Os indicadores desse ano apresentam dados negativos em praticamente todos os aspectos ligados ao social e que dependem de decisões políticas. Fora isso, tivemos tragédias ocorridas no país como o caso da Chapecoense, tomada do poder por parte de um grupo que representa apenas interesses das classes mais favorecidas e comprovadamente corruptos, talvez o grupo político mais corrupto que o Brasil possui está dominando neste momento o Legislativo e o Executivo. O Judiciário também mostrou a sua cara, não defendendo a democracia, se tornando mais político do que qualquer outra coisa e lutando para manter os seus benefícios como se estivessem fora das regras sociais e constitucionais, que definem que ninguém deve ganhar mais do que um Ministro do STF – Supremo Tribunal Federal. Ou o Brasil de 2016 está pior do que o dos anos anteriores ou nesse ano descobrimos a verdadeira cara do Brasil?

As duas afirmações se complementam e acabam que possuem um pouco de verdade. A sociedade brasileira, certamente após as últimas eleições, ficou muito mal representada. Os representantes do povo no Legislativo são os mais conservadores desde a ditadura militar, bem como suas características são as mais divergentes possíveis das representações populares do Brasil, com um número gigantesco de multimilionários, formado na maioria por brancos, idosos, quase coronéis em suas regiões, defensores dos financiadores de campanha por meio de compra de projetos legislativos de interesse dos empresários em detrimento dos interesses populares, conforme demonstram as investigações da Lava Jato. 


As gravações levantadas pelos delatores demonstraram que o país é dominado por forças políticas que tentam sempre induzir todas as ações do país em torno do seus interesses pessoais. As falas demonstrando a necessidade de “Estancar a Sangria” na gravação de Sergio Machado, em que foi dito também haver um pacto com participação inclusive dos ministros do STF, mostram que todos os poderes estão agora articulados em torno de uma agenda que defenda os interesses de poucos em detrimento dos desejos de muitos por uma sociedade mais justa e igualitária. Isso fica ainda mais clara na fala do próprio presidente atual Michel Temer quando diz que a presidente Dilma foi derrubada por não aceitar a “Ponte para o Futuro”, programa de governo apresentado pelo PMDB que defende apenas interesses das classes mais ricas do país e retiram diversos direitos das classes menos favorecidas, fala essa que foi confirmada e endossada várias vezes no Senado pelo parlamentar Cristovão Buarque. 

O STF, ao deixar Eduardo Cunha no seu mandato de presidente da câmara mesmo sabendo do seu envolvimento com a corrupção da Petrobras, já que Teóri Zavascki possuía todas as provas e delações e nenhuma ação tomou, demonstra que houve mesmo um grande acórdão dos poderes nacionais para a retirada da presidente Dilma, que era de origem popular. Gravações de Sérgio Machado com essas falas apresentadas no parágrafo anterior já estavam de posse dele, bem como a lista da Odebrecht que foi divulgada com apelidos e nomes dos recebedores de propina. Sérgio Moro também tinha todas essas informações, inclusive, mandou colocar a lista da Odebrecht em sigilo após o nome dos principais políticos do PSDB aparecer nela. Sendo assim, a nossa justiça representada pelo STF e pela vara de Curitiba, quando não tomaram as devidas providências no intuito de barrar esse acordão, sabiam que estavam colocando os verdadeiros maiores corruptos do Brasil no poder. 

O presidente atual é um fantoche do mercado financeiro, envolvido profundamente nos sistemas de corrupção ligadas a empresas que ao entrar no governo tomou um rumo ultraneoliberal visando a atender apenas interesses dos grandes empresários nacionais e de retirada de direitos dos trabalhadores e da sociedade civil, esses todos concentrados na PEC 241 – 55, bem como nos projetos de reforma da previdência e agora trabalhista.

Nas ações anteriores à tomada do poder, Michel Temer se mostrou um grande traidor, por derrubar aquela que foi eleita junto a ele durante a campanha eleitoral, demonstrando que não é digno de confiança.

Após o Impeachment, a confiança, que segundo os políticos que foram cooptados pelo mercado a adotar essa ação, rapidamente retornaria, e com ela os investimentos e consequentemente a atividade econômica e o emprego, entre outras melhorias sociais, não veio. Na verdade, o que se viu de forma prática foi exatamente o contrário, queda em todos os dados econômicos e sociais, desemprego em níveis crescentes a cada análise, atividade econômica com uma redução cada vez maior, aumento da dívida pública, redução dos índices de crescimento do PIB, entre outros dados que demonstram o caminho errado na parte econômica adotada pelo novo governo que só favorece o mercado e destrói a maior parte da sociedade, quebrando o pacto social construído na constituição de 1988 e reduzindo ainda mais a demanda por produtos no mercado aprofundando a recessão.

Para o ano de 2017, as perspectivas não são as melhores. Para que o país tenha crescimento, o primeiro passo é que tenhamos instituições fortes e confiáveis, além disso, precisamos também de um sistema democrático confiável, aspectos que foram destruídos com a ruptura institucional promovida pelo Impeachment sem crime de responsabilidade como prevê a Constituição. A única forma que pode ajudar o Brasil a sair de forma menos vagarosa desse ciclo vicioso de destruição econômica, política e social é um novo pacto social, que só pode ser adquirido com um diálogo franco entre os poderes e a proposta de uma nova eleição presidencial, no qual o povo tenha direito de escolher o que quer para o país, novamente, pelos próximos dois ou seis anos.

Anderson Silva