domingo, 23 de julho de 2017

Lula e a sua representação

A elite, a mídia e a justiça brasileira não quer destruir apenas o Lula, mas sim, o que ele representa em conquistas sociais, distribuição de renda e ascensão das classes menos favorecidas do país que foi a maior da história durante os seus mandatos.


Pouco a pouco a população brasileira vai percebendo o que alguns grupos, especialmente, de concepção política à esquerda diziam antes do Impeachment da presidente Dilma Rousseff: o golpe não é contra Dilma e sim contra você trabalhador ou que pertence as classes mais humildes do país. 

Nos meses que sucederam a ruptura institucional foram aprovadas as seguintes matérias: a PEC dos gastos públicos, que limitou o aumento do salário-mínimo e os investimentos em áreas sociais do país por 20 anos; logo após foram aprovados os projetos de lei que tratavam sobre a terceirização irrestrita e a reforma trabalhista que rasga literalmente a CLT e os direitos trabalhistas vigentes há mais de seis décadas no Brasil. Juntando essas duas últimas leis citadas, há uma precarização drástica das relações de trabalho no país. Entretanto, as mudanças para os trabalhadores não param por aí, pois, no futuro ainda virão as discussões sobre a reforma da previdência que trará a necessidade de mais anos de trabalho e contribuição para se conseguir o direito a aposentadoria. 

Além de tudo isso, o governo tem contingenciado recursos para a educação, saúde e ciência e tecnologia como nunca, reduziu os programas sociais criados pelo PT no seu governo e essa semana jogou um balde de água fria na classe média aumentando impostos que incidem sobre combustíveis, que tende a aumentar em, pelo menos, R$ 0,40 centavos o litro de gasolina. Esse aumento se deu após Michel Temer liberar bilhões de reais em emendas parlamentares para que fosse vitorioso na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados no processo que pede a sua investigação.

Enquanto tudo isso acontece o foco da mídia, da justiça e da elite está em não deixar que Lula seja candidato em 2018, pois, caso seja, eles sabem que a possibilidade de sua vitória é muito grande. Após condenar Lula sem provas, nessa semana, Moro com apoio desses setores da sociedade pediu para bloquear todos os bens do ex-presidente, de forma também arbitrária como tem sido todas as suas ações contra Lula. Esse foi mais um ataque do juiz visando demostrar a sua força e aumentar o seu apoio por parte da opinião pública. 

Porque esses grupos têm tanto interesse em destruir a figura do ex-presidente? Lula não é apenas uma auto representação. Lula representa acima de tudo a inclusão de toda uma população antes marginalizada que não tinha acesso aos serviços públicos e que passou a ser reconhecida pelo Estado como cidadãos após o seu governo. Lula representa o acesso aos programas sociais, ao um salário-mínimo mais digno e que fez com que as classes mais humildes se tornassem consumidores; representa o acesso ao ensino superior de uma grande parte da população de origem humilde, o aumento do consumo no mercado interno, dos investimentos, do repeito do Brasil internacionalmente entre muitos outros avanços. Representa emprego, representa aumento vigoroso em salários, representa comida na mesa da população mais pobre e que foi sempre marginalizada pelo Estado. Além disso ele representa uma parcela significativa do povo brasileiro. Não é atoa que em plena a quinta-feira fria de São Paulo ele conseguiu levar mais de 70 mil pessoas a Avenida Paulista para o prestar apoio e solidariedade após a condenação de Moro nos dias anteriores. 

Mas, o governo Lula não beneficiou apenas as classes subalternas, mas sim, todos as classes sociais do nosso país. Nunca a nossa economia movimentou tantos recursos, tivemos um crescimento tão vigoroso, as empresas e os bancos cresceram e lucraram tanto na história do nosso país. Assim, certamente a classe média e alta participaram mais efetivamente desses avanços do que qualquer outra classe social do país, lucrando vigorosamente com as políticas expansionistas do governo Lula que geraram um crescimento exponencial da economia nacional. Não é atoa que Lula saiu com mais de 87% de aprovação ao final de seu governo reconhecido de forma muito positiva, inclusive, por essa classe média e rica que hoje o condena.

Então porque a elite tem uma revolta tão grande contra Lula? Infelizmente a elite brasileira não quer a evolução de toda uma sociedade nos moldes em que ocorreu nos governos petistas. A nossa elite, infelizmente, quer exclusividade tanto nos produtos consumidos, quanto nos espaços em que ocupam e se esses espaços são ocupados por outras grupos sociais de origem mais humilde, inclusive, no caso do próprio Lula, que ocupou o principal cargo da república sendo um ex-metalúrgico, eles não aceitam, pois possuem uma visão atrasada de sociedade, o qual, a separação de classes deve ser clara e mantida. O que Lula fez ao sair da situação social em que tinha para se tornar presidente da República foi uma afronta a classe mais rica desse país que nunca conseguiu fazer um governo melhor do que ele em mais de 500 anos de história. 

Mas, o problema maior não é a nossa elite, que em número de pessoas é a menor classe que temos no país atualmente, e sim, a nossa classe média, que graças aos governos petistas se tornou a maior classe, em número de pessoas, existente no país. A nossa classe média ao apoiar a ruptura institucional não percebeu que eles seriam os maiores prejudicados nesse processo, já que tenderiam a perder investimentos, a economia tenderia a ter problemas em se recuperar da crise e da desestabilização política, econômica e social, gerando ainda mais desemprego, que consequentemente traz quedas nas vendas, o que afeta diretamente a classe média. 

Porque a classe média não percebe que perdeu com o Impeachment? A classe média brasileira sempre se achou elite e quis imitar a nossa elite em todos os espaços e períodos da nossa história. O problema é que em alguns momentos, no passado recente, eles melhoram as suas condições de vida e o seu padrão de consumo, graças as mudanças econômicas que o país viveu nos governos do PT, e começaram a sentir mesmo que fazem ou devem fazer parte de um grupo seleto da nossa sociedade, ou seja, da elite. Entretanto, eles não tem a mínima ideia do que é ser elite de verdade e a verdadeira elite jamais deixará que eles atinjam esse patamar. Assim, quando a elite toma o poder joga essa classe média de volta para o seu devido lugar como está sendo feito agora no governo de Michel Temer. Algumas frases das redes sociais representam muito bem essa visão da classe média brasileira, que formam as suas opiniões, principalmente da mídia televisiva, que é alienante e totalmente elitista:

A classe média brasileira prefere ser pobre em um país de miseráveis do que ser milionária em um país de classe média. Autor Desconhecido.

Essa frase tocou na definição correta da classe média brasileira. Por ter uma visão muito conservadora e próximo daquilo que prega a elite nacional, eles também buscam determinados status sociais que os diferenciam das classes subalternas, fazendo com que a ascensão dessas classes menos favorecidas, sejam por elas criticadas e combatidas, mesmo que eles estejam levando vantagem com essa evolução conjunta da sociedade. 

Essa é uma das explicações de a classe média não ter lutado contra a corrupção do governo Temer, de Aécio Neves e outros com a mesma fúria que diziam tentar combater os indícios de corrupção petistas. Para eles, esses grupos sociais representam os seus anseios e interesses, e, em certa medida, isso se faz verdade, já que todos esses dois grupos, elite e classe média, compram a ideia de que precisam ter mão de obra barata para poder retirar o máximo de lucro das classes menos favorecidas. Isso para a classe multimilionária faz sentido, mas para a classe média nem tanto, pois, são as classes subalternas que compram os seus produtos e, portanto, se esses não tem dinheiro, a classe média não consegue se manter.

O Lula demonstrou claramente que é possível fazer uma política do ganha-ganha, onde todos enriquecem juntos. No qual quanto mais igual for a nação, maior a chance da classe média ter uma ascensão de seus recursos e em qualidade de vida, já que os pobres com mais dinheiro tendem a consumir mais e, assim, a classe média dona desses espaços consumidores tende a lucrar mais, perpassando essa lógica também para as elites. Mas esse não é o modelo ideal para esses dois grupos que ainda possuem uma mentalidade escravista de sociedade, claramente demonstrada, na reforma trabalhista, que tem um ideal mais voltado para a escravização social da classe trabalhadora do que de gerar empregos e desenvolvimento social. 

O que as elites não entenderam ou não querem enxergar é que esse modelo a longo prazo, trará apenas a destruição de suas próprias riquezas, pois, com a redução dos salários, tende a haver uma queda na atividade econômica, que gerará perda de vendas generalizadas, mais desemprego e a derrocada de todas as classes sociais do país. 

A melhor saída nesse momento era a discussão de propostas que visassem ações contrárias as tomadas, que se mostram totalmente recessivas. Essas ações teriam que caminhar rumo as propostas aplicadas por Lula durante os seus mandatos que proporcionou toda essa evolução social ao Brasil, sendo elas: ações voltadas para o aumento do crédito, investimentos estatais especialmente em infraestrutura, manutenção do poder de consumo das classes trabalhadores para um aquecimento da economia e assim o retorno da política de ganha-ganha, tão proposta por Lula em suas falas. Mas, por essa ser uma proposta de um ex-metalúrgico, para as nossas elites e a nossa classe média, não é digna de ser levada em consideração, mesmo que estejam perdendo muito dinheiro e caminhando para o fechamento de suas empresas. Na visão deles não há como todos saírem ganhando no mundo dos negócios, quando um ganha o outro tem que perder. Portanto, mais vale a política do perde-perde, de foma prática, o que corrobora coma frase do autor desconhecido, do que uma política voltada para o ganha-ganha.

Anderson Silva